A frase sempre é usada para definir o futebol, mas pra nós que amamos carros (mesmo os que também amam futebol), podemos adaptar: carro é a coisa menos importante entre as mais importantes. Carros nos levam e trazem, e apenas isso, se formos analisar o seu objetivo principal. Mas por algum motivo acabamos nos apegando muito a alguns deles. Os motivos são inúmeros e não cabe a mim enumerá-los aqui. Todos que acessam a Home-Page do Passat sabem muito bem como isso pode acontecer, cada um tem a sua história e um motivo pra ter se apegado a um Passat (ou outro modelo). E quando isso acontece, não é apenas o levar e o trazer que importam.

No meu caso, a história começa em algum momento do início dos anos 80. Eu era pequeno demais pra lembrar em que ano foi, talvez em 1983 ou 1984, pois calculo que eu tinha uns 4 ou 5 anos de idade. Mas lembro bem que meu pai tinha um Chevette bege (1976 ou 1977, por aí) e um belo dia foi me buscar no colégio, de carro. O colégio ficava na minha rua mesmo, a 200 metros de casa. Não havia a menor necessidade de me buscar de carro e nem era o costume. Ao sair pelo portão, ele me esperava na frente em um belo Passat verde. Apesar de pequeno, eu já conhecia todos, ou quase todos, os carros daquela época e reconheci o Passat. E no lugar de andar apenas aqueles 200 metros que nos separavam de casa, meu pai me levou pra dar uma volta pela orla e curtir o novo carro. Foi, assim, o primeiro passeio que me lembro dentro de um Passat.
Aquele Passat era um LS 1980 3 portas, Verde Pampa (só fui aprender o nome dessa cor muitos, mas muitos anos depois), placas da cidade do Rio de Janeiro, WT-8123. Foi logo equipado com um toca-fitas abaixo do revestimento central do painel e, pelo que lembro, nada mais. O carro não era muito usado no dia a dia, pois não havia muita necessidade. Mas em qualquer final de semana prolongado ou férias, a família toda embarcava no Passat com destino a algum lugar. Foram incontáveis viagens a Minas Gerais para visitar meus avós, algumas ao norte do RJ, uma para o Espírito Santo durante 1 mês conhecendo as praias do estado, outra também de semanas em direção ao sul do país, onde conheci Curitiba, Porto Alegre, Gramado, Foz do Iguaçu, entre outras cidades. Foi este Passat que trouxe, no banco traseiro rebatido, minha Caloicross AeroFree e a Caloi Ceci da minha irmã da loja, foi ele que nos levou de repente em uma triste viagem no meio de uma semana a Minas Gerais quando meu avô faleceu, foi nele que saímos várias vezes pra ir a praia e pescar, foi nele que fiquei sentado horas conhecendo um carro, lendo o manual, limpando, lavando, etc. Foi este carro que serviu muito bem a família até o finalzinho de 1989. Naquele ano o Passat Verde Pampa começou a apresentar sinais de ferrugem e foi colocado numa reforma completa, pintura novinha, ficou um espetáculo. Porém, poucos meses depois, meu pai estacionou em nossa rua e no dia seguinte não encontrou mais o carro onde havia deixado. Mesmo tendo seguro, ele ainda foi com um amigo a vários desmanches da Baixada Fluminense e outras cidades próximas, em busca daquele LS. Nunca mais tivemos notícias. Depois dele veio um Del Rey (seguido de outro), outros carros… Mas sempre ficou a lembrança. Anos mais tarde, com uns 15 anos de idade, um amigo me ofereceu seu carro pra dirigir pela primeira vez. Por obra do destino, era um LS 80 Verde Pampa.
A paixão pelo Passat ficou. Em 1996, por conta dessa paixão e daquele LS 80, juntei umas revistas velhas, um punhadinho de informações imprecisas e superficiais e criei a Home-Page do Passat. O tempo passou, a paixão só aumentou, aos poucos vieram os meus Passat, os amigos com a mesma paixão, as viagens para eventos, o Passat Clube-RJ… Tudo em relação a Passat se consolidou. Mas faltava alguma coisa: sempre que eu via um Passat igual ao que meu pai teve, vinham as lembranças daquela época e a vontade de ter um igual. Enfim, aconteceu. Depois de muita conversa com um grande amigo (que não sabe que estou fazendo este texto, portanto não vou citá-lo aqui por enquanto sem que ele saiba e concorde), a quem terá sempre minha gratidão por isso, fizemos uma loucura: fiquei com o LS 80 dele e ele com meu LSE 87. Pouquíssimos motivos me convenceriam a me desfazer do meu LSE, o maior companheiro de viagens que tive. E um desses motivos apareceu. A tristeza de vê-lo ficar em outra garagem foi superada pela chegada do Passat que eu sempre quis e também pela certeza de que ele ficou em ótimas mãos (provavelmente melhores que as minhas próprias mãos).
Este Passat é praticamente igual ao do meu pai: mesmo ano, mesma cor, 3 portas… Foi produzido cerca de 30.000 Passat após o nosso ex-Passat (sim, ainda guardo o documento dele). Com o carro finalmente em casa, meu próximo passo era mostrá-lo ao meu pai. Nunca fui bom em surpresas e, apesar de ocasionalmente meu pai lembrar do Passat dele quando conversa comigo sobre carros, confesso que tinha um grande receio de mostrar o novo Passat e ele não dar a menor importância. Afinal, já se passaram praticamente 25 anos. Mas eu não podia deixar de mostrar o carro e na quarta-feira de cinzas, logo de manhã, liguei pra minha mãe (que já havia sido devidamente informada do assunto e ajudou a manter o segredo) e pedi que ela avisasse ao meu pai que eu havia trocado o LSE e queria levá-lo pra dar uma volta no novo carro, sem dizer qual era. Consegui uma vaga exatamente em frente ao prédio deles e saí do carro pra esperar. Vi quando a porta do elevador se abriu e meu pai saiu. Ele deu alguns passos, olhou pra rua, sorriu e gritou de longe em tom de brincadeira “Ei! Esse é o meu Passat! Onde você achou ele?”. Na hora veio o alívio imediato pela reação dele… Ele saiu do prédio e começou a andar ao redor do carro, sorrindo. Perguntou se era o mesmo ano do dele, entre outras coisas. Abriu a porta do motorista, sentou no banco e se acomodou. Perguntei se a gente daria uma volta, achando que ele ia querer ficar no banco do passageiro e na mesma hora ele respondeu “Vamos ver se eu ainda sei dirigir um Passat”, enquanto fechava o cinto. Eu não poderia ter ouvido resposta melhor.
E lá fomos nós, passeando pelas ruas do bairro… No trajeto, ele começou a falar das viagens, dos anos em que ficou com o carro, do roubo do mesmo em nossa rua. Lembranças de muito tempo atrás. Depois de alguns minutos voltamos ao prédio e ele saiu todo satisfeito, me dando os parabéns pelo carro. Os amigos que já sabiam o que aconteceria naquela manhã esperavam as notícias sobre a reação dele e sei que muitos se emocionaram. Mais tarde, soube que ele se segurou na hora, mas também se emocionou quando voltou pra casa. Depois ele agradeceu por eu ter proporcionado a ele essas lembranças de novo.
Meu pai não precisa me agradecer por nada. Eu é que estou agradecido por ter tido a chance de proporcionar isso a ele.
Nota: no dia 11 de setembro de 2020, meu pai, Luiz Carlos, nos deixou, após problemas de saúde contra os quais vinha lutando a muito tempo. Em setembro de 2019, fez sua última viagem de carro com quase toda a família, ocupando o banco do passageiro do Passat LS Verde Pampa do post, que tantas lembranças trazia a ele. Passeou, curtiu e se orgulhou do carrinho, que continuará sendo bem tratado e será uma das muitas boas lembranças que teremos dele.
Home-Page do Passat O primeiro site sobre o Passat brasileiro
E foi a venda pelo meu pai de um LS 78/79 três portas, Branco Alasca, que me levou a se interessar por carros antigos. Bela história! Parabéns pelo site!
Puxa vida! Despertou lembranças minhas do meu velho LS 79 branco duas portas:
Da melhor posição de dirigir que já vi num carro sem regulagem de volante, altura de banco, etc, Hoje em dia é um tal de dirigir de perna dobrada. Um horror!
De um dos melhores volantes que já coloquei as mãos.
Do compromisso entre conforto e estabilidade que nunca mais vi em suspensão alguma neste país.
Do melhor escalonamento de câmbio de quatro marchas que já existiu por aqui.
Do motor acelerado como o cão quando frio devido ao “carburador a água”.
Do frentão quadradão onde se via as quinas do carro.
Da certa sensação de claustrofobia ao se sentar no banco traseiro.
Do painel começando a rachar entre os furinhos do alto-falante central.
Das noitadas, das viagens, dos amigos e namoradas que nele levava.
E finalmente, do peculiar barulhinho de engradado de garrafa do silencioso. Uma das características mais marcantes desse carro.
Mas passou o tempo, veio a maldita ferrugem, a queima de óleo pelos já gastos anéis do valente motor com 1500 de cilindrada. E ele foi embora. Eu com o coração apertado e minha namorada (hoje esposa) desolada.
Vida que segue.
Bela Historia! Agradeço o Flavio Gomes pelo link.
Parabéns!
Bela história boas lembranças!
História bem bacana. Saudades do Corcel I 74 do meu pai.Que depois de 15 anos e apenas 92000Km rodados teve o mesmo fim do Passat do seu pai, foi roubado em Brasília.
Realmente, emocionante. Enquanto lia, me lembrava das minhas próprias histórias, a bordo do LS 1980, que o meu pai tinha. E fui lembrando de todas as outras, a bordo de todos os carros. Lembro de todos e de todas as histórias… Como não se emocionar? Deixa eu parar de escrever, pra enxugar as lágrimas… Parabéns!
André, linda história, emocionante.
Sei bem o que é isso, tenho até hoje o primeiro carro do meu pai, uma Vemaguet 64 1001, comprada 0 Km por ele quando eu tinha 8 anos.
Certamente você não se lembra de mim, mas já nos conhecemos e conversamos num daqueles Blue Clouds em Caxambu. Também sou ex-dono de Passats, um deles um TS 1978, verde indaiá, inesquecível.
Abraços, parabéns pelo blog e pelo seu trabalho em preservar a história de um dos melhores automóveis já fabricados no Brasil.
Augusto Freire – Brasília
Bela História!! acho que seria legal um post por semana com histórias de donos de passat… Pode apostar que virão muitas e bonitas também!!
Bela história, André! Parabéns pela homenagem ao Passat da família!
Incrível, André! O Passat que marcou, ou melhor, que iniciou a minha vida, foi aquele que me levou da maternidade para casa: um modelo 77 branco, de dois faróis redondos e 5 portas, que hoje dizem ser muitíssimo raro.